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A ECOLOGIA DO BAMBU

O pensamento sistêmico ensinado no antigo Oriente, pela planta de 150 milhões de anos que é hoje um arquétipo da humanidade.

Publicado originalmente em Medium em 2021-01-17. Integrado ao acervo técnico estruturado (Advocacy 5.1).


A ECOLOGIA DO BAMBU

O pensamento sistêmico ensinado no antigo Oriente, pela planta de 150 milhões de anos que é hoje um arquétipo da humanidade.

2019-Fabio Takwara

Floresta do Phyllostachys Edullis na Reserva Ecológica de Águas Emendadas-DF

O bambu é um dos vegetais mais antigos do planeta e considerado o biomaterial mais utilizado pela humanidade. Paleontólogos afirmam ter sido o bambu a dieta principal dos dinossauros no período Cretáceo há mais de 100 milhões de anos. Em 2019, cientistas da Índia obtiveram provas fósseis de duas novas espécies de bambu, datadas do período Oligoceno (25 milhões de anos). Essa descoberta coloca a Índia como berço do bambu, em vez da China, como se acreditava anteriormente.

Para compreender a importância desta descoberta, imagine que o bambu vem aprimorando a estrutura genética ao longo de sua existência, para resistir às drásticas mudanças climáticas e significativas catástrofes enfrentadas pelo planeta. Além disso, foi testemunha do surgimento e ferramenta do desenvolvimento da humanidade.

Podemos dizer que esta planta foi fundamental para o desenvolvimento humano, pois ele serviu de alimento e abrigo por milhares de anos antes da evolução da agricultura e a introdução de outras espécies. Também eram feitos de bambu instrumentos de armazenamento, artefatos, embarcações, combustíveis variados e engrenagens dos mais diversos tipos. São raros os fósseis de utensílios de bambu no estudo da arqueologia, justamente por sua natureza renovável. No entanto, é possível datar a sua aparição em contato com o ser humano há 400 mil anos, como artefato de fricção para produzir o fogo e, há 3.000 anos na China como o Livro das Mutações, o “I Ching” — formado de feixes de ripas amarradas pelas pontas, pois o papel ainda não havia sido inventado. Embora largamente utilizadas, as construções feitas de bambu não foram preservadas por longos períodos, mas sabe-se que o Taj Mahal, na Índia, edificado em 1653 tem a sua cúpula feita de bambu, sendo talvez a obra estrutural mais antiga já identificada. É possível encontrar nas províncias do Japão, Vietnã, China, Índia e Indonésia, construções camponesas com mais de 100 anos.

O bambu é conhecido como o maior sequestrador de CO2 da atmosfera em todo o reino vegetal, e por ter um ciclo de vida curto, que varia entre 10 e 20 anos, precisa ser utilizado em todas as suas fases de vida, propiciando assim o manejo adequado para o melhor aproveitamento da cultura. Indivíduos velhos consomem a energia necessária para o desenvolvimento dos mais jovens e a ausência de luz faz com que o crescimento seja interrompido, gerando deformações e matéria prima inútil para manufaturas.

Sendo característica das plantas, assim como de todos os seres vivos que, quando morrem liberam na atmosfera novamente todo o carbono armazenado, é preciso fixar este carbono colhendo os indivíduos maduros e transformando-os em utensílios de vida mais prolongada. Mas, por ser um material orgânico, a sua decomposição também é rápida e este teria sido talvez o maior desafio da humanidade, conservar as obras de bambu pelo maior tempo de vida possível.

Para se ter uma ideia da magnífica interação do bambu com o mecanismo de auto gestão do planeta, esta foi a única espécie vegetal que brotou espontaneamente após a catástrofe ambiental de 1945, causada pelas bombas atômicas lançadas pelos EUA em Hiroshima e Nagazaki no Japão. Ou seja, o bambu sinalizou que a partir daquele momento, haveria condições de regeneração da vida naquele lugar.

O pensamento reducionista-mecanicista que separa as partes do todo e foi herdado de filósofos da Revolução Científica do século XVII, como Descartes e Newton, interferiu no processo de desenvolvimento sistêmico que é intrínseco da natureza e de todos os modelos de vida existentes no planeta. Assim como o corpo humano é constituído de órgãos que interagem entre si para manter a vida, da mesma forma são constituídas as plantas e os demais seres que interagem todos entre si e mantêm o fluxo harmônico da nossa existência. Os últimos séculos foram marcados por inúmeras demonstrações de esgotamento dos recursos naturais e da própria vida humana devido a este pensamento, e, especialmente no último século, o bambu tem sido apresentado aos povos do Ocidente já inserido nesta forma de utilização predadora. Isso rompe com uma tradição de povos antigos, que lhe atribuíam uma função filosófica primordial.

No Oriente, são ensinadas Sete Lições do Bambu:

1- O bambu resiste à tempestade porque teve a grandeza e a humildade de se curvar diante dela, em respeito à sua natureza Divina;

2- O bambu tem raízes profundas, pois só assim é possível crescer e alcançar as alturas, demonstrando o respeito à ancestralidade;

3- O bambu vive em comunidade e cada indivíduo é responsável pela existência um do outro, ou seja, a cooperação leva ao sucesso;

4- A meta do bambu é o céu e por isso ele não cria galhos que possam atrapalhar a sua escalada e a dos seus irmãos. Ele não se apega à futilidades;

5- O bambu não tem ego — ele coleciona em seus nós todas as pedras e espinhos do caminho, aceitando sua imperfeição e ganhando sustentação para subir com as dádivas recebidas, em comunidade;

6- O bambu é oco, é vazio de si mesmo, é acolhedor, estando sempre disponível para receber o que vem de fora, sem se ressentir;

7- O bambu vive em busca das coisas do altíssimo, da PAZ e do BEM comum.

O bambu, portanto, existe como se não tivesse razão de ser e com isso nos ensina a suprir todas as nossas necessidades básicas de forma colaborativa, para que em comunidade possam cada indivíduo apoiar e permitir a existência do outro em sua melhor performance.

Aquele pensamento reducionista adotado nos últimos séculos, sintetizou e deturpou de forma repetitiva e mecânica todos os esforços que a Natureza e o ser humano, com toda a sua genialidade, construíram ao longo de suas existências de forma integrada. Com a revolução industrial, o ser humano passou a ser uma máquina reprodutiva e utilizou a natureza como matéria prima para todos os artifícios de morte em massa.

No século XX, inúmeras mentes brilhantes notaram essa fragmentação destrutiva vinda da evolução das civilizações e produziram diversos trabalhos de reconstrução do pensamento sistêmico — que era natural de povos originários — , trazendo-o como uma das chaves para a solução dos problemas mais graves que acometem todas as sociedades do mundo atual. Seguem alguns exemplos:

· O célebre cientista americano Carl Sagan, com a série de TV Cosmos, desvenda para a humanidade muitos dos mistérios do universo. Dentre os seus mais de 600 livros, em “O Mundo Assombrado pelos Demônios”, questiona as bases que pautam as sociedades modernas, sob a luz da ciência.

· O físico austríaco Fritjof Capra em seu primeiro livro comercial, “O TAO da Física”, apresenta a ciência sob o ponto de vista filosófico, indo contra todos os conceitos que a regiam até então. Tornou-se, como escritor, o maior decodificador do pensamento sistêmico, criando teorias aplicáveis à resolução dos problemas econômicos e sociais da humanidade sob o olhar científico. Ele inspirou as teorias das conexões em rede e a apropriação e aplicação do conhecimento científico pelos próprios indivíduos, em prol das suas comunidades.

· O sociólogo polonês Zygmunt Bauman e a sua Modernidade Líquida, refere-se ao estado de consciência volátil da pós-modernidade e expõe de forma límpida e clara como as sociedades de consumo com as suas ferramentas tecnológicas de mídias sociais, difundem uma quantidade gigantesca de informações, mas por causa do individualismo das práticas, nada ajudam na aplicação dos conhecimentos.

· Influenciado pela complexidade do termo “Ecologia” (A palavra que deriva da junção grega Ökologie, eco (Oikos) Casa e logia (Logos) Estudo), criado pelo cientista alemão Ernest Haeckel em 1866, o filósofo francês Edgar Morin em 1977 publica sua sua grande obra “O Método”, criando o pensamento complexo onde fundamenta os Sete Pilares para a Educação do Futuro, os quais faço aqui uma interpretação livre e uma analogia com as 7 lições do bambu:

1- Partir da própria experiência de vida, receber as forças da natureza com humildade, respeito e interação, se curvar e viver o caminho;

2- Filtrar as fontes de informação, se orientar por bases sólidas e criar raízes;

3- Compreender a realidade tridimensional da condição humana, que interage com os demais seres ao seu redor e desenvolver o espirito comunitário;

4- Estabelecer empatia com o outro, compreender e aceitar a condição humana e não criar galhos que atrapalhem o desenvolvimento mútuo;

5- O conhecimento é mutável, as ações geram conflitos e incertezas, aprender com os erros e criar nós de sustentação, dissolver o ego e conquistar aliados;

6- Aceitar a complexidade dos fenômenos do tempo e do espaço, permanecer oco e vazio de certezas;

7- Adotar a ética como o limite da ação, respeitando a própria condição de um ser tridimensional, biológico, individual e social.

Essa evidente sensação de coincidência que a leitura dos Sete Pilares produz quando comparadas com as Sete Lições do Bambu, é explicada pelo conceito de Arquétipo, que foi criadopor outro grande influenciador desse século abençoado: o psiquiatra suíço Carl Jung. Este conceito se traduz como um modelo antigo a ser seguido, é como se algo representasse um protótipo ou remetesses antigas impressões sobre algo. Nesse sentido eu ouso declarar que o bambu é um arquétipo da humanidade.

O século XXI abre as portas sob a luz dessas influências regeneradoras da condição humana na Terra. Do ponto de vista prático e transformador de realidades, o termo Permacultura, proposto pelo pesquisador e cientista naturalista australiano Bill Mollison, no início da década de 1970, representa um manual de instruções de como contemplar esses princípios com ações práticas no âmbito comunitário. A Permacultura é definida como um método holístico para planejar, atualizar e manter sistemas de escala humana ambientalmente sustentáveis, socialmente justos e financeiramente viáveis. Tamanha é a complexidade desta definição, que a humanidade levará ainda algumas décadas para a aplicação precisa do termo. Fortemente influenciada pelas ideias do filósofo e agricultor japonês, Masanobu Fukuoka, autor do livro “A Revolução de uma folha de Palha”, que apresenta o Método Fukuoka de agricultura ecológica, a Permacultura — que significa cultura permanente, foi muito além da agricultura. Ela reuniu uma diversidade de saberes e ensinamentos científicos e os ditos populares, sobre como agir equilibradamente em comunidades e tem influenciado várias gerações de pensadores da atualidade.

Poder-se-ia dizer que a Permacultura é um sistema de harmonização de realidades. É um instrumento que permite reunir informações relevantes sobre uma situação a ser enfrentada e encontrar a solução mais harmônica a ser aplicada dentro dos princípios e conceitos da Ecologia, que por sua vez são sintetizados nos Sete Pilares da Educação Moderna e que eram ensinados há milênios nas Sete Lições do Bambu.